quarta-feira, 20 de abril de 2016

Ruído



Os galhos secos apontados
sob as folhas amareladas
Crash Crash
dilaceradas.
Esmagadas pelo sapato tamanho 44
do menino vazio.
Seus olhos transparentes
lacrimejando.
Resposta ao lago recém-seco
reflexo do antigo lago esverdeado
abundante.
Recém-esquecido.
Gotinhas tímidas de chuva
respingam nos óculos quadrados
3 graus e meio
Pling Pling
escorrendo
no olhar vazio.
Vem abaixo
com suas longas pernas.
Esparrama-se o menino
sobre a grama quase anêmica
verde ressecada
áspera
roça a pele
de dois braços vazios.
Pinicando, arranhando, cutucando
Tic Tic
As unhas longas coçam os pelos ralos.
Suspira o menino
Respira o ar pesado
massa cinza
sob os prédios.
Vazio.
Adormece sob a chuva ácida.
Revira-se no mato
Mergulha no azul do sonho antigo.
Sorri de leve, olhos fechados.
Gotinhas em forma de estrela
atravessam as palmas estiradas do menino vazio.
Inundam o solo
renascendo o lago
cessando a sede
preenchendo os poros do menino adormecido.
Anoitece mais uma vez na cidade seca.
Rrr Rrr
Ronca o menino.
Esvazia o peito
abre os pulmões
inspirando fundo.
Ai Ai
Sonha o menino.



domingo, 17 de janeiro de 2016

A Dor é Brega

Do toque sagrado das mãos suaves
Dos dedos leves
Do corpo frágil
sobrepondo-se ao meu
é do que sinto mais falta.

Das gargalhadas
sorrindo aberto
mostrando os dentes
escondendo o acanhamento
é do que sinto mais falta.

Das palavras certeiras
em momentos precisos
e dos olhos atentos
fugindo dos óculos
procurando respostas
eu também sinto falta.

Falta muito.
Falta a presença
Falta o mergulho
Falta sentido
Sobra saudade
Falta constância.

Queria te levar no colo
e apertar-te junto ao peito
pra que ouvisse bem de perto
um coração em descompasso
desembalado
cambaleante
latejando sem consolo
em chagas derramado.




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Leste-Oeste-Norte-Sul



Ilustração de Gi Paixão

Julieta do mar
Estrela do sul
Um marciano na Terra
Um tucano azul.


A sereia cantando no lugar do sabiá

Julieta voando
Não conseguia mais parar!


O sabiá roubou o espelho da sereia
Passou batom vermelho
Penteou o topete
Empinou o rabinho
E pôs-se a dançar.
A sereia enfurecida

Segurou-se
Controlou-se
Calou-se
Atirou-se ao mar!


Julieta entregue ao vento
Estacionou na primeira estrela ao leste-oeste-norte-sul.
Do alto observava:
Um tucano, um marciano e um sabiá
 no cha cha cha.
Do alto ela pensava:                     
Não quero mais voltar!
Aqui eu vou morar!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lírio

Tive um pressentimento
Na Lua Crescente:

Que você existia.
Que caía do céu
Pousava
E vinha.

Os cabelos no rosto
Os dedos compridos
Graves agudos
Sussurro e afago .
Me engolia no breu.
Ofegante .
Corpo calado.

Olhos mergulhados
Dedilhados
No peito aberto
Arranhado
Nos dentes
Na boca discreta.

Pressinto e disfarço
Respiro e debruço
Contraindo a mordida
Agarrando o espaço.

Entre os meus dedos
Dois mares
E um lençol rasgado.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Retrato


Olhos alegres e corpo leve.

Atrás dos óculos.

Lente compacta.

Cinema. 2007.

O  coração disparado. Hoje

A boca seca. Agora

A tela acesa. Procurando as palavras.

O vai e vem do choro abafado.

Angústia não pede registro.

Prefiro os retratos de um tempo bom.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Suado



Molhados de suor terminam.
Apressados.

Ela calcula cada movimento.
Ele sufoca cada gemido.

O suor
O grito abafado,

Ela espera a hora certa
Ela pondera, ela pensa.
Ela quer fugir,
Ele respira. Ele se entrega.
Ele espera. Ela quer sorrir.

Os olhos tristes, perdidos,
O corpo triste, cansado.
O gemido.
O calor do quarto abafado.
O fogo do grito abafado.
O gemido triste.
Desesperado.

Molhados de suor terminam.
O gemido,
Sufocado,

sábado, 6 de setembro de 2014

De costas para tudo


            Ela é engraçada. Está sentada na cama de novo, de costas para tudo e olhando pela janela. O andar não é muito alto, mas a vista dá para o viaduto onde passam os carros e onde moram as pessoas que fumam crack. E também há aquela torre que fica mudando de cor. Eu gosto de ver a torre. O que será que ela vê lá fora? Ela já comentou sobre o céu mudando de cor e sobre como não enxerga as pessoas ali embaixo quando está sem óculos. Mas ela fica tanto tempo ali olhando. Não sei se é isso que lhe interessa. Ela se interessa pelo que está lá fora. Ela olha bem longe e em silêncio. Ela pode ficar horas em silêncio se eu a deixar ali imóvel. Se eu não entrar no quarto e fazê-la se virar e voltar para mim. Ela fica em silêncio tantas vezes. O tempo todo eu lhe pergunto sobre seus pensamentos. Ela nem sempre responde. Ela se esquiva muitas vezes. Ela parece querer ir embora, mas eu a faço ficar muito facilmente.
            Eu lhe pergunto se ela está mesmo feliz aqui hoje. Ela diz que sim. Ela parece um tanto sem rumo ao mesmo tempo em que parece muito decidida e demonstra certa teimosia. Eu falo sobre como acho linda sua pele branca e como me atrai sua delicadeza. Ela parece agradecida, mas não muito feliz. Ela parece querer ouvir mais coisas a seu respeito. Coisas que não consigo adivinhar quais são. Quando lhe falo sobre como esteve mal-humorada de manhã ela se defende e parece querer me matar. Chora muito e quer ir embora. Pega suas roupas no chão. Eu a abraço e ela fica. Não parece muito feliz.
            Ela espera a noite chegar. Ela diz que nem deveria ter vindo. Ela diz que não se arrepende de ter vindo, mas que já passou da hora de ir embora. Eu peço para que passe a noite comigo. Ela quer, mas não vai ficar. Eu digo que ela tem medo. Digo isto muitas vezes. Vez ou outra ela ri, vez ou outra ela se explica e discorda. Discorda muitas vezes sobre tudo que digo a seu respeito. Não sei bem porque ficamos juntos. Ela diz que acha linda a minha boca. Eu a levo até a porta e a abraço. Em frente ao elevador ela espera olhando para mim. Parece aquele olhar através da janela. Não sei se olha para mim ou para o quadro na parede atrás de mim ou para a lembrança do quarto ou para o que quer que seja que observava, sentada na cama, de costas para tudo.

            Ela não parece muito feliz.