segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Leste-Oeste-Norte-Sul



Ilustração de Gi Paixão

Julieta do mar
Estrela do sul
Um marciano na Terra
Um tucano azul.


A sereia cantando no lugar do sabiá

Julieta voando
Não conseguia mais parar!


O sabiá roubou o espelho da sereia
Passou batom vermelho
Penteou o topete
Empinou o rabinho
E pôs-se a dançar.
A sereia enfurecida

Segurou-se
Controlou-se
Calou-se
Atirou-se ao mar!


Julieta entregue ao vento
Estacionou na primeira estrela ao leste-oeste-norte-sul.
Do alto observava:
Um tucano, um marciano e um sabiá
 no cha cha cha.
Do alto ela pensava:                     
Não quero mais voltar!
Aqui eu vou morar!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lírio

Tive um pressentimento
Na Lua Crescente:

Que você existia.
Que caía do céu
Pousava
E vinha.

Os cabelos no rosto
Os dedos compridos
Graves agudos
Sussurro e afago .
Me engolia no breu.
Ofegante .
Corpo calado.

Olhos mergulhados
Dedilhados
No peito aberto
Arranhado
Nos dentes
Na boca discreta.

Pressinto e disfarço
Respiro e debruço
Contraindo a mordida
Agarrando o espaço.

Entre os meus dedos
Dois mares
E um lençol rasgado.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Retrato


Olhos alegres e corpo leve.

Atrás dos óculos.

Lente compacta.

Cinema. 2007.

O  coração disparado. Hoje

A boca seca. Agora

A tela acesa. Procurando as palavras.

O vai e vem do choro abafado.

Angústia não pede registro.

Prefiro os retratos de um tempo bom.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Suado



Molhados de suor terminam.
Apressados.

Ela calcula cada movimento.
Ele sufoca cada gemido.

O suor
O grito abafado,

Ela espera a hora certa
Ela pondera, ela pensa.
Ela quer fugir,
Ele respira. Ele se entrega.
Ele espera. Ela quer sorrir.

Os olhos tristes, perdidos,
O corpo triste, cansado.
O gemido.
O calor do quarto abafado.
O fogo do grito abafado.
O gemido triste.
Desesperado.

Molhados de suor terminam.
O gemido,
Sufocado,

sábado, 6 de setembro de 2014

De costas para tudo


            Ela é engraçada. Está sentada na cama de novo, de costas para tudo e olhando pela janela. O andar não é muito alto, mas a vista dá para o viaduto onde passam os carros e onde moram as pessoas que fumam crack. E também há aquela torre que fica mudando de cor. Eu gosto de ver a torre. O que será que ela vê lá fora? Ela já comentou sobre o céu mudando de cor e sobre como não enxerga as pessoas ali embaixo quando está sem óculos. Mas ela fica tanto tempo ali olhando. Não sei se é isso que lhe interessa. Ela se interessa pelo que está lá fora. Ela olha bem longe e em silêncio. Ela pode ficar horas em silêncio se eu a deixar ali imóvel. Se eu não entrar no quarto e fazê-la se virar e voltar para mim. Ela fica em silêncio tantas vezes. O tempo todo eu lhe pergunto sobre seus pensamentos. Ela nem sempre responde. Ela se esquiva muitas vezes. Ela parece querer ir embora, mas eu a faço ficar muito facilmente.
            Eu lhe pergunto se ela está mesmo feliz aqui hoje. Ela diz que sim. Ela parece um tanto sem rumo ao mesmo tempo em que parece muito decidida e demonstra certa teimosia. Eu falo sobre como acho linda sua pele branca e como me atrai sua delicadeza. Ela parece agradecida, mas não muito feliz. Ela parece querer ouvir mais coisas a seu respeito. Coisas que não consigo adivinhar quais são. Quando lhe falo sobre como esteve mal-humorada de manhã ela se defende e parece querer me matar. Chora muito e quer ir embora. Pega suas roupas no chão. Eu a abraço e ela fica. Não parece muito feliz.
            Ela espera a noite chegar. Ela diz que nem deveria ter vindo. Ela diz que não se arrepende de ter vindo, mas que já passou da hora de ir embora. Eu peço para que passe a noite comigo. Ela quer, mas não vai ficar. Eu digo que ela tem medo. Digo isto muitas vezes. Vez ou outra ela ri, vez ou outra ela se explica e discorda. Discorda muitas vezes sobre tudo que digo a seu respeito. Não sei bem porque ficamos juntos. Ela diz que acha linda a minha boca. Eu a levo até a porta e a abraço. Em frente ao elevador ela espera olhando para mim. Parece aquele olhar através da janela. Não sei se olha para mim ou para o quadro na parede atrás de mim ou para a lembrança do quarto ou para o que quer que seja que observava, sentada na cama, de costas para tudo.

            Ela não parece muito feliz.

domingo, 10 de agosto de 2014

Coleções

         São três da tarde. Ele está debaixo do sol usando um chapéu de palha. Ele entra e sai do seu quartinho de ferramentas e bugigangas. Minha mãe diria velharias. Eu diria antiguidades. Quando éramos crianças, eu e minha irmã chamávamos o quartinho de casinha. Era uma espécie de depósito onde se guardava tudo que não tinha mais lugar dentro de casa. Da casa de verdade.
            Quando nos mudamos a casinha dividiu-se em duas. Transformou-se nos dois quartinhos no quintal. Um era o depósito e o outro virou o quartinho do meu pai. Ali tem de tudo. Não só o que não tem mais espaço dentro de casa, mas também aquilo que nunca entrou. Todas as tralhas- diria minha mãe outra vez-, que ele acha por aí, na rua, na estrada, no mato durante as pescarias; objetos sempre úteis para ele de alguma forma e às vezes outros itens exóticos, estes sempre compartilhados comigo.
            Minha irmã nunca deu bola e minha mãe nunca teve paciência. A disposição para as pedras coloridas ou engraçadas ou de formatos estranhos, para as frutas esquisitas, para as revistas antigas, para as moedas desenterradas, para as sementes de plantas inusitadas e raras, sempre foi um dom compartilhado apenas entre meu pai e eu.
            Faz muito tempo que não entro no quartinho. Não me lembro mais o que está guardado ali e nem quais novas relíquias apareceram. Só descubro quando ele vem me mostrar especificamente uma novidade ou outra. Algumas até ficam comigo. Tenho uma pedra pequena meio marrom meio lilás no meu estojo de canetas. Ela está metade esculpida metade bruta. Quando ele me ofereceu esta, poucos meses atrás, não pude deixar de lamentar o sumiço da minha antiga coleção de pedras. Eu tinha muitas. Elas enchiam um pote grande de margarina Qualy, a tampa estava até estufada, eu me lembro. Eu era criança. Tinha pedras pequenininhas, muitas, e as grandes eram a principal atração. Lembro-me bem da pedrona branca meio transparente meio esfarelada nas pontas. Eu lavava e enxugava uma a uma, assim como lavava e enxugava numa bacia vermelha a minha coleção de anjinhos de resina e porcelana.
            Eu sempre tive gosto para as coleções. O caso é que o pote de pedras sumiu. Já revirei o outro quartinho-, onde estão as bonecas velhas, os cadernos velhos, alguns móveis velhos-, não achei. Faz tempo. Os anjos continuam na mesinha ao pé da cama no meu antigo quarto.
            Não sei bem o que ele está fazendo ali, de chapéu de palha. Espio pela janela aberta, de frente para a jabuticabeira no quintal. Faz pouco tempo ele reformou vários móveis; tudo sempre pôde ser reaproveitado, hoje ele consertou um guarda-chuva, há muito tempo atrás me lembro dele sentado num banquinho tecendo a rede de pesca. Sempre quis aprender a tecer uma rede como ele, assim como sempre quis aprender a costurar como a minha mãe.
            Não sei exatamente o que há hoje dentro do quartinho. Não sei exatamente que mistérios estão escondidos atrás daquelas portas, que ficam atrás da jabuticabeira; as portas dos depósitos/museus/lembranças. Não sei bem por que estou espiando. O que sei bem é o que minha vista alcança: um homem de costas, sem camisa, com um grande chapéu de palha na cabeça, meio dentro meio fora de um pequeno quarto de porta cinza, banhado pelo sol da tarde que perpassa os galhos da jabuticabeira carregada e esbarra nas telhas avermelhadas, que abrigam o mistério.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Segunda-Feira

        Ele usava lápis embaixo dos olhos. Barbudo e cabeludo. Me olhava de longe. Desviei o olhar um pouco atrasada. Estava colocando as compras no caixa. Me agachava e levantava diversas vezes com um iogurte ou um pacote de papel higiênico nas mãos. Na água de côco percebi que ele tinha se mudado para a minha fila. Uma senhora com quatro sucos de soja nos separava.
            Coloquei ali as compras da semana um tanto encabulada. Evitava olhar para ele, mas estava curiosa. Eu sei que o meu vestido longo e amarelo chamava atenção. Era uma figura colorida em meio às compras da tarde. Seus olhos e sua barba também chamavam atenção. Era algo familiar para mim em meio à confusão do supermercado.
            Eu empacotava tudo apressada, mas não tinha horário algum marcado. Ele me observava enquanto comia uma ameixa calmamente. Era uma figura engraçada. Era uma dessas imagens misteriosas que eu gosto de guardar na memória. Era familiar não sei bem por que. Era atraente na sua calma, na sua curiosidade tranqüila. Os olhos fixos em mim.
            Eu estava quase de saída quando ele, indo pagar sua compra pequena, se jogou em frente às minhas sacolas. Pedi licença e fui embora carregada. Era segunda-feira. Era fim de tarde. Era um dia comum. Era só mais um olhar que deveria se manter desconhecido.